Acrilico com colagem sobre tela de Ainez Rosito Até 14 de novembro a Arte&Fato está mostrando as pinturas e colagens de Ainez Aranha Rosito. A série denominada ROUPAS E CORES foi vista pelo colecionador Fernando Cacciatore Garcia que escreveu o comentário abaixo:
Uma das alegrias que a arte nos proporciona é quando um artista renova um gênero, um tema, uma técnica, uma expressão artística. De várias maneiras é o que faz Ainez Aranha Rosito com sua exposição “Roupas e Cores”, na galeria Arte & Fato, da Rua São Manuel. Isto porque, em primeiro lugar, Ainez imprime sobre a arte dita naïve ou ingênua fortes marcas de uma individualidade nada ingênua. Nesse tipo de linguagem, geralmente falta aquela pitada de sal que a transformaria no imponderável que é “a arte”, permanecendo, por essa falta, ou no nível da ilustração ou no do “exótico”. Os quadros ingênuos nos agradam justamente por apelarem a uma veia nossa, digamos, simples: a simplicidade do tema, da técnica, do clima que a obra nos desperta. Não é assim no caso de Ainez. Sua técnica é próxima da arte ingênua, mas não o é. Nela se inspira, mas a supera em muitos pontos. O primeiro e mais evidente é o clima altamente poético de suas cordas de roupas secando sob um céu infinito. Sua arte, se comparada a dos poetas, seria a de um “poeta menor”. Mas nossos poetas ditos menores, como o próprio Manuel Bandeira se chamava, chegam a alturas maiores. Os quadros de Ainez são assim. São reminiscências de um tempo antigo, de roupas ao vento, na paisagem. São lembranças de um passado “ingênuo”, como seria o da infância. São o retrato de uma liberdade colorida, exposta ao sol, ao vento, ao pampa. Sim, este, para mim, seria outro ponto em que a arte de Ainez supera as características básicas da arte dita ingênua. Isso porque o Rio Grande está e não está em seus quadros. Nalguns, ainda se vê algum galpão de estância ao longe, alguma mata de eucaliptos, típicas “lá de fora”. Mas a maioria dos quadros só são corda, roupa e céu. Tal como nas estâncias, de nosso passado, individual ou mítico, de nosso Estado, pois, nas cidades, não mais são vistas essas coloridas bandeiras desfraldadas nos quaradores. Ainez reduziu tudo a céu, mais infinito que o pampa, e sobre esse infinito colocou essas roupinhas magistralmente desenhadas, coladas ou pintadas. É uma paisagem rio-grandense, sem sê-lo. Essa sutileza não é naïve, é erudita. Comparando outra vez seus quadrinhos com literatura, a presença do Rio Grande neles é tão sutil quando a do Rio de Janeiro na obra de Machado de Assis. Está presente em sua ausência. Assim, se simples na forma, os trabalhos de Ainez são profundos no conteúdo, altamente poético e tão sutil quando densamente local. À margem dessas considerações gerais, talvez a chave da beleza de seus trabalhos, a que possibilitou abrir esses baús de reminiscências, pessoais e locais, seja a grande feminilidade de seus quadros. Tudo é tão leve, tão ao tempo, tão ao vento, nas cores, nos tecidos, nas rendas, que vemos com facilidade a presença da mão e do coração de uma mulher. E o que é mais, de uma mulher contente consigo mesma, que nos transmite com sua arte um patrimônio comum: a felicidade poética da infância vivida em nossa terra de céus muito amplos. Que lindas são essas cordas cheias de roupinhas bonitas contra o infinito de nosso céu! Finalize-se dizendo que a simpática Galeria Arte & Fato, mais que uma simples exposição, parece que montou uma “instalação”. Sim, porque o conjunto de todos os quadros de Ainez cria uma forte unidade, estabelecendo com isso um ambiente poético, único e nosso, no qual nos vemos imersos, pelo próprio tamanho da galeria, unindo assim o espaço e as obras.



